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Atualizações e posicionamento ABIMÓVEL: Acordo Mercosul–União Europeia 

  • Geral
  • 12 de fevereiro de 2026

Processo de ratificação enfrenta questionamentos legais e pode alongar prazos para a entrada em vigor; chanceler alemão reforça, porém, que o tratado começará a valer provisoriamente no momento em que o primeiro Estado sul-americano o ratificar, antes mesmo do julgamento no Parlamento Europeu; no Brasil, o Senado criou um grupo de trabalho para avaliar e, se necessário, aprimorar salvaguardas relacionadas a setores sensíveis

A ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) avalia a assinatura oficial do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia, realizada em 17 de janeiro de 2026, em Assunção, no Paraguai, como um marco relevante no reposicionamento estratégico do comércio exterior brasileiro em um cenário internacional marcado por maior fragmentação, elevação de barreiras tarifárias e não tarifárias e perda de previsibilidade em mercados tradicionalmente estratégicos para a indústria.

Após mais de 25 anos de negociações, o acordo estabelece um novo patamar nas relações entre dois blocos que, juntos, concentram cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. Para o Brasil, trata-se de uma iniciativa de caráter estrutural, com potencial para ampliar o grau de integração internacional do país e reduzir a dependência de poucos destinos em um ambiente global cada vez mais volátil.

No caso específico da indústria brasileira de móveis, a assinatura do acordo ganha relevância adicional diante do reposicionamento forçado do comércio exterior do setor ao longo de 2025, provocado principalmente pelas mudanças na política comercial dos Estados Unidos. Apesar de seguirem como o principal destino das exportações brasileiras de móveis e colchões, os EUA reduziram sua participação de forma significativa no último ano, impactados pela aplicação de sobretaxas e pela consequente interrupção de contratos. No acumulado de 2025, a participação estadunidense nos embarques do setor recuou para 23,5%, após anos operando em patamares próximos ou superiores a 30%.

Nesse contexto, a ampliação do acesso ao mercado europeu passa a assumir papel ainda mais estratégico como alternativa de diversificação de destinos, mitigação de riscos e reequilíbrio da pauta exportadora. Estudos setoriais e avaliações técnicas conduzidas pela ABIMÓVEL em parceria com o IEMI – Inteligência de Mercado indicam que a entrada em vigor do acordo poderá gerar um crescimento de 20% nas exportações brasileiras de móveis para a União Europeia, já no primeiro ano de vigência — um avanço expressivo para um mercado historicamente marcado por barreiras tarifárias e exigências regulatórias elevadas.

Atualmente, países europeus como França, Alemanha, Espanha e Portugal já importam mobiliário brasileiro, ainda que com participações reduzidas diante do potencial da região e da capacidade produtiva da indústria nacional. Em 2025, a União Europeia respondeu por 9,3% do total de móveis e colchões exportados pelo Brasil.

Comércio Exterior de Móveis Prontos e Colchões entre Brasil e União Europeia (em US$ FOB 1.000)
Ano 2019202020212022202320242025
Exportações 55.27551.35667.89071.75266.18060.51971.249
Importações 39.44633.81532.71234.01941.76346.60657.340
Saldo Comercial 15.82917.54235.17837.73324.41713.91313.909
Participação da União Europeia nas Exportações e Importações Brasileiras (em %)
Ano 2019202020212022202320242025
Participação das exportações 8,6%8,2%7,2%8,6%9,0%7,9%9,3%
Participação das importações 17,5%16,3%12,5%17,7%17,8%15,6%18,2%
Participação do saldo comercial 3,8%4,2%5,2%5,9%4,9%3,0%3,1%
Comércio Exterior de Móveis Prontos e Colchões entre Brasil e Mundo (em US$ FOB 1.000)
Ano 2019202020212022202320242025
Exportações 644.018628.196937.985830.709735.376763.052769.317
Importações 224.775207.211262.404191.889234.423298.346315.144
Saldo Comercial 419.242420.985675.581638.819500.954464.705454.173

A França, embora tenha se posicionado de forma contrária ao acordo no debate político europeu, mantém relevância comercial concreta para o setor: foi o nono principal destino das exportações brasileiras de móveis em 2025. Trata-se de um mercado sofisticado, com demanda consistente por produtos associados a design, sustentabilidade, rastreabilidade e valor agregado — atributos nos quais a indústria brasileira vem avançando de forma estruturada.

Além da União Europeia, a ABIMÓVEL ressalta que o Brasil já vem atuando em acordos comerciais com países europeus fora do bloco, especialmente com os integrantes da EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio)Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein —, mercados de alto poder aquisitivo e forte exigência técnica. Além disso, o Reino Unido, mesmo após o Brexit, segue como um dos principais destinos europeus do mobiliário brasileiro, tendo ocupado a sexta posição no ano passado, o que reforça a importância estratégica do continente europeu como um todo para a diversificação das exportações do setor.

A entidade destaca, contudo, que os benefícios do acordo não são automáticos. O acesso ao mercado europeu continuará condicionado a elevados padrões técnicos, ambientais e regulatórios, com destaque para as exigências de rastreabilidade da madeira, conformidade produtiva e sustentabilidade, reforçadas pelo Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), cuja aplicação foi adiada, mas não flexibilizada. Assim, o acordo amplia oportunidades, mas também exige maior preparo técnico, organizacional e estratégico das empresas brasileiras.

Paralelamente à assinatura do tratado, o Brasil vem reforçando sua presença institucional e comercial na Europa por meio de uma agenda consistente de promoção internacional e participação em grandes eventos do setor. O país marcou presença na IMM Cologne 2026, realizada em janeiro na Alemanha, uma das principais vitrines globais do mobiliário contemporâneo. Em abril, a indústria brasileira volta a se posicionar no Salone del Mobile.Milano 2026, principal feira mundial nos segmentos de design e mobiliário, fundamental para o posicionamento de produtos de maior valor agregado e para a construção de imagem internacional do setor.

No sentido inverso, a ABIMÓVEL observa que o fluxo de importações brasileiras de móveis oriundos da União Europeia tende a se concentrar, historicamente, em categorias de maior valor agregado, como produtos de design autoral, soluções premium, mobiliário corporativo especializado e itens de alto conteúdo tecnológico. Tratam-se de segmentos que dialogam com nichos específicos do mercado e não descaracterizam a competitividade, a escala produtiva e a diversidade da indústria brasileira, hoje amplamente capaz de atender o consumo interno e disputar espaço internacional em diferentes faixas de preço, qualidade e posicionamento. Nesse contexto, o acordo deve ser compreendido como um instrumento de integração econômica e comercial, reforçando a necessidade de condições equilibradas de concorrência e de políticas que preservem a indústria instalada nos países envolvidos.

Para a ABIMÓVEL, a assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia consolida um reposicionamento internacional estratégico para ambas as regiões, especialmente em um momento em que mercados como os Estados Unidos adotam posturas mais restritivas e imprevisíveis.

“A indústria brasileira de móveis possui escala produtiva, diversidade, capacidade de inovação, uso crescente de matérias-primas certificadas e uma agenda consistente de sustentabilidade. O acordo com a União Europeia pode transformar essas competências em vantagem competitiva cada vez mais concreta, desde que acompanhado de segurança regulatória, diálogo técnico permanente, diplomacia e políticas internas que preservem a capacidade produtiva, o emprego e os investimentos”, avalia a ABIMÓVEL.

Atualização

Ao mesmo tempo, o processo de ratificação enfrenta questionamentos legais e pode alongar prazos para a entrada em vigor. O Parlamento Europeu aprovou, em 21 de janeiro, uma resolução solicitando à Corte de Justiça da União Europeia um parecer jurídico sobre a compatibilidade do Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia com os tratados constitutivos do bloco europeu. A decisão foi tomada por margem estreita — 334 votos favoráveis, 324 contrários e 11 abstenções — e impede o Parlamento de avançar para a votação final enquanto a Corte não se manifestar. Processo que pode levar até 24 meses.

O pedido de revisão jurídica evidencia divisões internas persistentes no Parlamento Europeu e divergências entre eurodeputados e a Comissão Europeia quanto aos impactos econômicos, ambientais e institucionais do acordo. Apesar disso, a medida não invalida o tratado, mas suspende seu processo de ratificação legislativa no âmbito europeu.

Agricultores espanhóis realizaram nesta semana manifestações em Madri contra o acordo, alegando riscos de concorrência desleal e impactos sobre a soberania alimentar europeia. Em paralelo, o Parlamento Europeu aprovou medidas de salvaguarda agrícola que permitem a suspensão temporária de benefícios tarifários para produtos considerados sensíveis — como carnes, açúcar, ovos e frutas cítricas — caso aumentos de importação ultrapassem determinados limites de volume e preço. As salvaguardas preveem monitoramento periódico por parte da Comissão Europeia e estabelecem critérios objetivos para eventual reintrodução de tarifas.

Frente a este cenário, ganha força o debate sobre a possibilidade de implementação provisória de partes do acordo, mecanismo previsto na legislação europeia que permitiria a aplicação antecipada de capítulos comerciais, desde que haja aval jurídico da Corte. O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou  no início de fevereiro que o acordo deverá começar a valer transitoriamente mesmo antes da análise pelo Tribunal de Justiça da União Europeia.

“A situação atual é que as tentativas de adiamento no último minuto, ou seja, no Parlamento Europeu, não serão bem-sucedidas (…) Este acordo comercial entrará em vigor provisoriamente no momento em que o primeiro Estado sul-americano o ratificar”, disse Merz num evento da empresa de valores mobiliários Deutsche Börse, em Eschborn. Os quatro membros permanentes do Mercosul iniciarão o processo interno de ratificação do acordo em fevereiro, e o Paraguai deverá ser o primeiro, concluindo o processo até março.

No Brasil, a tramitação também avança. O relator na Câmara dos Deputados apresentou parecer favorável ao texto, enquanto a Representação Brasileira no Parlasul debate o acordo antes de seu encaminhamento ao plenário. O Senado criou grupo de trabalho para avaliar e, se necessário, também aprimorar salvaguardas relacionadas a setores sensíveis, refletindo preocupações pontuais de segmentos do agronegócio, mas mantendo o entendimento de que a desgravação tarifária será gradual e acompanhada de mecanismos de proteção recíproca.

O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, afirmou que o governo está otimista quanto à aprovação do acordo na Câmara dos Deputados ainda nas próximas semanas de fevereiro. Segundo ele, o tratado amplia mercados, atrai investimentos e fortalece setores estratégicos da economia brasileira, ao reduzir tarifas em mais de 90% do comércio bilateral de forma gradual e protegendo segmentos considerados sensíveis. Alckmin também destacou que o acordo integra uma estratégia mais ampla de inserção internacional do Brasil, ressaltando que o país registrou exportações recordes de US$ 429 bilhões em 2025.

Nesse panorama, a ABIMÓVEL segue atuando de forma propositiva junto ao poder público, aos parceiros internacionais e às empresas do setor, acompanhando o processo de ratificação do acordo, além de intensificar suas ações de inteligência comercial, promoção internacional e apoio à adequação técnica da indústria brasileira de móveis aos mercados mais exigentes do mundo. A atuação inclui ainda o acompanhamento das tratativas com a EFTA e Singapura, defendendo a ampliação do diálogo com o setor privado para definir prioridades na política comercial.

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ABIMÓVEL – Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário
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