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Indústria de móveis fechou 2025 com queda na produção

  • Geral
  • 5 de março de 2026

Juros altos, crédito restrito e tarifaço dos EUA são alguns dos vetores

O fechamento de 2025 deixou um legado incômodo para a cadeia de móveis e colchões no Brasil: o setor entrou em 2026 com o freio puxado, após o enfraquecimento da demanda no último trimestre. No mercado interno, crédito caro e orçamento doméstico mais apertado reduziram a tração dos bens duráveis e alongaram decisões de compra. No ambiente externo, a elevação do risco regulatório e tarifário – em especial no mercado estadunidense – intensificou cancelamentos e gerou imprevisibilidade comercial. O resultado aparece tanto no fluxo de pedidos doméstico quanto internacional.

Os dados da “Conjuntura de Móveis – Edição Fevereiro 2026”, estudo levantado pelo IEMI com exclusividade para a ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), mostram que a indústria de móveis e colchões fechou 2025 com recuo de 1,2% em número de peças produzidas.

A trajetória do segundo semestre ajuda a explicar a queda. Os primeiros meses da segunda metade do ano registraram nível mais alto de produção e outubro marcou o pico (mais de 41,5 milhões de peças), num movimento de antecipação de pedidos. A inflexão, porém, veio no último bimestre. Com previsibilidade deteriorada e carteira de pedidos esvaziada, a indústria corrigiu o ritmo. Em novembro, a produção caiu 7,2% (38,5 milhões de peças) e, em dezembro, recuou para 30,7 milhões de peças produzidas: -20,4% no mês.

Produção de móveis e colchões (em volume)

-1,2% em 2025 frente a 2024

Já a receita industrial estimada foi de R$ 6,8 bilhões no último mês do ano, com recuo mensal de 20,5%. No acumulado de 2025, porém, registrou-se alta de 3,2%. O preço médio por peça na fábrica ficou em R$ 221,62 em dezembro e subiu 4,37% no ano.

Esse descolamento entre receita e volume é um sinal típico de ciclos de desaceleração, quando o valor pode se sustentar por composição e renegociações de preço, o que não elimina o problema quando o volume encolhe e a produtividade recua. Para a indústria, o “stress test” passa a ser operar com custo de capital alto, demanda mais seletiva e competição mais dura no varejo.

“O setor de móveis é particularmente sensível a dois tipos de sinal econômico: o preço do crédito para o consumidor e para capital de giro das empresas, e a clareza do ambiente externo para quem exporta ou depende de cadeias integradas. No fim de 2025, ambos os sinais pioraram”, salienta o presidente da ABIMÓVEL, Irineu Munhoz.

 

Ele continua: “No mercado doméstico, os juros altos e as condições financeiras mais restritivas reduzem a velocidade do consumo de bens duráveis, pressionam o varejo e, por consequência, comprimem a programação industrial. Ao mesmo tempo, um ambiente de maior incerteza no comércio internacional, intensificado por barreiras e medidas tarifárias adicionais, como as impostas pelos Estados Unidos, faz o importador ‘esperar’ para comprar ou trocar de fornecedor. Para uma indústria que planeja produção com antecedência e trabalha com estoques, isso se traduz em ajuste de turnos e equipe, revisão de compras e postergação de investimentos”.

 

Consumo interno cede e importados ganham espaço na disputa por preço

O consumo aparente somou 31,3 milhões de peças em dezembro, com recuo de 19,7% no mês. No acumulado do ano, a queda foi de 0,7%.

No mesmo mês, a participação dos importados no mercado interno chegou a 7,8%, ficando em 5,2% no ano. Um dado que importa, pois a competição se desloca rapidamente para preço quando o mercado desacelera. Em um panorama de consumo menos aquecido, a presença do produto importado tende a ampliar a pressão no ponto de venda e acelerar a disputa por margem ao longo da cadeia.

Emprego cresce no ano, mas produtividade despenca

Diante dessas movimentações, o mercado de trabalho acompanhou o contraste de 2025: a indústria sustentou o emprego ao longo do ano, mas encerrou o período ajustando a intensidade. Em dezembro, o número de pessoal ocupado na indústria moveleira recuou 2,3% frente ao mês anterior. No ano completo, ainda assim, variou +4,7%.

Outros indicadores reforçam o caráter de “puxada de freio” do fim do ano:

Horas Trabalhadas

-15,0% em dezembro
+7,9% em 2025

Média Salarial

R$ 2.416,42 em dezembro
+17,2% no mês
+6,3% no ano

Massa Salarial

R$ 488,0 mi em dezembro
+14,5% no mês
+12,0% no ano (nominal)

Produtividade

-6,3% em dezembro
-8,4% acumulado (2025)

Esse último item é central. Quando a produtividade cai, o setor passa a carregar o ajuste com custo maior e isso tende a aparecer em margem, eficiência e capacidade de sustentar investimentos em modernização, que também foram caindo consecutivamente nos últimos meses do ano. A importação de máquinas e equipamentos para a fabricação de móveis fechou 2025 ainda com alta de 32,8% frente a 2024, mas perdeu totalmente a tração em janeiro: -28,8% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

O sinal é direto: num cenário instável, o investimento tende a ficar mais cauteloso. Isso é particularmente relevante porque, com a produtividade em queda no ano, a modernização passa a ser menos “agenda de expansão” e mais “agenda de sobrevivência competitiva”.

Com juros altos e crédito restrito, varejo de móveis também cai em 2025

Na ponta final, com o parcelamento mais caro e maior seletividade do consumidor, o varejo entrou no segundo semestre com menor conversão. Em dezembro, mesmo com as promoções de fim de ano, as vendas em volume foram estimadas em 38,9 milhões de peças, 0,9% menor do que em novembro (mês de Black Friday).

No acumulado de 2025, o recuo foi de 4,3% em volume. Em receita, o varejo fechou dezembro em R$ 12,8 bilhões (-0,6%) e terminou 2025 com queda de 1,2%.

Varejo de Móveis (milhões de peças)

-4,3% em 2025 frente a 2024

O comportamento do segundo semestre — com variações mensais e picos sazonais que não reverteram o acumulado — reforça a leitura de um mercado doméstico operando com mais restrições, em que campanhas promocionais ajudam a girar estoque, mas não recompõem sozinhas o volume.

Quando se fala em preço, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do mobiliário registrou -0,08% em janeiro de 2026. Em 12 meses, o indicador ficou em +4,18%, abaixo do IPCA geral (+4,44%). Em linguagem de mercado: o setor entrou em 2026 com repasse contido e competição elevada, cenário coerente com um varejo que terminou 2025 menor em volume e com um consumidor mais sensível a preço e crédito.

Meses IPCA – Mobiliário IPCA – Geral
No mês (1) No ano (2) 12 meses (3) No mês (1) No ano (2) 12 meses (3)
setembro/2025 0,38% 3,57% 5,70% 0,48% 3,64% 5,17%
outubro/2025 -0,18% 3,38% 4,60% 0,09% 3,73% 4,68%
novembro/2025 0,19% 3,57% 4,65% 0,18% 3,92% 4,46%
dezembro/2025 0,85% 4,45% 4,45% 0,33% 4,26% 4,26%
janeiro/2026 -0,08% -0,08% 4,18% 0,33% 0,33% 4,44%

No comércio exterior, resultados de janeiro de 2026 escancaram cenário volátil para exportações de móveis

Já no ambiente externo, a perda de previsibilidade ganhou um componente específico no segundo semestre: o tarifaço dos Estados Unidos, que tornou o móvel brasileiro mais caro para importadores americanos e aumentou incertezas no principal destino do setor. As exportações brasileiras de móveis e colchões somaram US$ 769,3 milhões em 2025 (+0,8%), um resultado que apesar de positivo, escancara uma queda drástica na segunda metade do ano, após o anúncio das sobretaxas de Trump. 

Agora, com a virada de ano, um fator fica ainda mais claro: o impacto não foi pontual. Em janeiro de 2026, os embarques de móveis e colchões brasileiros totalizaram US$ 38,9 milhões, uma queda de 41,8% frente a dezembro (US$ 66,9 milhões) e 13,7% abaixo de janeiro de 2025 (US$ 45,1 milhões). Mais do que a variação mensal, o dado ajuda a ler o atual momento como termômetro de negociações mais cautelosas, com pedidos mais sensíveis à precificação do custo total e ao risco regulatório.

A própria distribuição de destinos em janeiro reforça a reconfiguração: os EUA responderam por “apenas” 19,3% do total, abaixo de 28,3% em jan/2025 e de 34,7% em jan/2024. Na sequência, destacaram-se Uruguai (12,2%) e Chile (8,0%), além de Peru (7,7%) e Reino Unido (6,0%). A Argentina, que vinha crescendo em participação, cedeu no início de ano, mas continua comprando mais do que em anos anteriores. 

O “top 10” concentrou 73,5% das exportações do mês, sinalizando maior peso relativo de mercados recorrentes num momento de menor volume total.

Destino das Exportações

(acumulado do ano)

Dentre os principais mercados externos consumidores de móveis e colchões brasileiros, no mês de janeiro de 2026, destacaram-se as participações de Estados Unidos (19,3%), Uruguai (12,2%) e Chile (8,0%).

Países Jan/2024 Jan/2025 Jan/2026
US$ mil Part. (%) US$ mil Part. (%) US$ mil Part. (%)
1. Estados Unidos 16.994 34,7% 12.807 28,3% 7.521 19,3%
2. Uruguai 4.408 9,0% 4.422 9,8% 4.739 12,2%
3. Chile 3.206 6,6% 3.155 7,0% 3.101 8,0%
4. Peru 1.667 3,4% 1.859 4,1% 3.000 7,7%
5. Reino Unido 3.196 6,5% 2.530 5,6% 2.357 6,0%
6. México 930 1,9% 1.149 2,5% 2.230 5,7%
7. Paraguai 1.404 2,9% 1.438 3,2% 1.939 5,0%
8. Argentina 176 0,4% 1.414 3,1% 1.607 4,1%
9. Equador 880 1,8% 284 0,6% 1.199 3,1%
10. Bolívia 1.172 2,4% 1.477 3,3% 945 2,4%
Subtotal 34.034 69,6% 30.535 67,6% 28.638 73,5%
Outros 14.873 30,4% 14.643 32,4% 10.336 26,5%
Total 48.907 100,0% 45.177 100,0% 38.975 100,0%

Fonte: Secex (Ministério da Economia). Elaboração: IEMI.

Nota: Não inclui assentos para aviões e automóveis, nem partes para móveis e nem partes para assentos.

Do lado das importações, os números seguem relevantes para a pressão competitiva no mercado doméstico: em janeiro, as compras externas somaram US$ 30,5 milhões, com recuo de 2,9% frente a dezembro (US$ 31,4 milhões).

Queda de produção e emprego: 2025 terminou fraco para a Indústria de Transformação

E não foi só o setor moveleiro que sentiu os efeitos econômicos e geopolíticos sobre sua cadeia de produção e consumo. A produção na Indústria de Transformação no Brasil recuou 11,2% em dezembro frente a novembro e fechou o ano em -0,2%. O emprego caiu 1,5% em dezembro e teve variação de -0,2% no ano. 

“Para 2026, a discussão deixa de ser apenas ‘quando o volume volta’ e passa a incluir ‘em que condições o setor volta a planejar’. Na indústria, a previsibilidade é insumo. E 2025 foi, sobretudo, um ano em que esse insumo ficou escasso, seja por juros e crédito no mercado interno ou por risco regulatório e barreiras no ambiente externo”, finaliza o presidente da ABIMÓVEL.

A pauta externa, aliás, é assunto de um próximo artigo no site da ABIMÓVEL. Assine nossa newsletter e não perca nada: abimovel.com.

Resumo – Principais Indicadores do Setor Moveleiro

IEMI
Indicadores Brasil Minas Gerais Paraná Rio Grande do Sul Santa Catarina São Paulo
Produção (Peças) – Dezembro/25 -20,4% - -27,3% -21,5% - -
Consumo Aparente – Dezembro/25 -19,7% - -27,9% -22,7% - -
Exportação (US$) – Janeiro/26 -41,8% -39,2% -33,9% -29,6% -55,8% -52,1%
Importação (US$) – Janeiro/26 -2,9% 25,8% 25,2% -19,8% -14,4% -4,4%
Participação dos Importados – Dezembro/25 7,8% - 3,8% 0,4% - -
Participação dos Exportados – Dezembro/25 6,1% - 8,4% 11,6% - -
Emprego – Dezembro/25 -2,3% -2,41% -2,69% -2,56% -3,29% -1,89%
Varejo (Volume) – Dezembro/25 -0,9% -8,0% 7,9% 8,0% 16,1% 8,3%
Varejo (Valores) – Dezembro/25 -0,6% -7,6% 6,9% 9,8% 15,1% 9,3%
Inflação (móveis) – Janeiro/26 -0,08% 0,33% -1,21% -1,24% - -0,22%
Fonte: IBGE/Secex/CAGED/CNI. Elaboração IEMI.
A íntegra da Conjuntura de Móveis – Fevereiro/2026 está disponível no acervo digital da ABIMÓVEL:

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