
Indústria, economia digital, bioeconomia e manufatura avançada estão entre os setores abrangidos pela iniciativa entre os dois países. Presidente sul-coreano parece estar interessado agora em finalizar a parceria comercial com o bloco sul-americano, travado desde 2021
A visita presidencial brasileira a Seul, em 23 de fevereiro de 2026, produziu um sinal que vai além da diplomacia protocolar: Brasil e Coreia do Sul assinaram um Acordo sobre Comércio e Integração Produtiva para estruturar, de forma permanente, uma agenda de cooperação industrial e tecnológica entre os dois países.
Neste movimento, ainda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende concluir ainda em 2026 o acordo comercial Mercosul–Coreia do Sul, que está travado desde 2021.
A combinação desses dois fatos — um acordo bilateral com desenho de “chão de fábrica” (integração produtiva) e a tentativa de reativar um tratado amplo entre blocos — ajuda a explicar por que o tema voltou ao topo da agenda. Em um cenário internacional marcado por maior protecionismo, disputas por tecnologia e reorganização de cadeias, a Coreia do Sul parece interessada em acelerar sua conexão com a América do Sul, enquanto o Brasil busca reposicionamento: menos dependência de exportação primária e mais inserção por valor, tecnologia e indústria.
O que foi assinado: um “marco institucional permanente” com agenda de tecnologia, cadeias e indústria
O acordo bilateral firmado em Seul cria uma arquitetura de cooperação com vocação prática. O instrumento estabelece um marco institucional permanente para ampliar o comércio e fortalecer a integração produtiva, com ênfase em inovação, agregação de valor e empregos qualificados.
Áreas de Cooperação do Acordo
O conteúdo do acordo é revelador do tipo de parceria pretendida. Ele contempla cooperação em áreas estratégicas como:
incluindo minerais críticos
e tecnologias do futuro
medidas sanitárias e fitossanitárias
Para coordenar a execução, o texto cria uma Comissão Bilateral de Relações Econômicas e Comerciais, copresidida, do lado brasileiro, por MDIC e Itamaraty, com possibilidade de grupos de trabalho temáticos e participação do setor privado — uma engenharia que costuma ser usada quando o objetivo é dar continuidade e transformar “declaração” em portfólio de projetos.
No Fórum Empresarial Brasil–Coreia do Sul, a própria formulação pública dos representantes do governo indica o recado estratégico: o Brasil quer ir além do comércio e avançar em transferência e internalização de tecnologia, buscando reposicionamento nas cadeias globais.
Por que isso importa agora: “unilateralismo” e a urgência de acordos em uma economia de blocos
A fala de Lula em Seul insere a negociação Mercosul–Coreia do Sul no contexto geopolítico atual. O presidente disse que lembrou ao mandatário sul-coreano da importância de avançar “neste instante que se discute a pauta do unilateralismo”, e afirmou que o líder coreano está “muito interessado” em destravar o acordo ainda este ano.
A leitura é direta: quando cresce a incerteza no comércio internacional, acordos ganham valor como instrumento de previsibilidade. Não é apenas tarifa. É regra, rito aduaneiro, acesso, previsibilidade jurídica e mecanismos de solução de controvérsias. É também uma forma de ancorar investimentos e reduzir custo de risco ao longo da cadeia.
O acordo Mercosul–Coreia do Sul: onde travou e por que pode voltar a andar
A negociação entre Mercosul e Coreia do Sul não é nova: foi lançada em 2018 e avançou em rodadas técnicas até 2021, quando perdeu tração.
Na prática, 2021 virou a “trava” política: desde então, o acordo não avançou no ritmo esperado. Agora, a sinalização conjunta de Brasil e Coreia do Sul é de retomada, com a promessa de reorganização dos trabalhos e a criação de grupos para dar celeridade.
O que muda em 2026 é o incentivo. Para a Coreia, há um motivo econômico e estratégico: diversificar mercados e cadeias em meio ao redesenho global. Para o Mercosul (e especialmente para o Brasil), há também um motivo industrial: não ficar preso a uma pauta externa concentrada em commodities, enquanto importa bens de alta tecnologia.
Uma relação comercial “equilibrada”, mas com assimetria de conteúdo
Os números divulgados pelo governo brasileiro ajudam a entender a natureza do desafio — e a lógica do novo acordo bilateral. Em 2025, o comércio bilateral Brasil–Coreia do Sul alcançou US$ 11 bilhões, com fluxo relativamente equilibrado: cerca de US$ 5,5 bilhões exportados e US$ 5,5 bilhões importados.
O equilíbrio, porém, não significa simetria. As exportações brasileiras se concentram em petróleo, minério de ferro, celulose e itens do agronegócio (soja e carnes), enquanto as importações vindas da Coreia são majoritariamente bens manufaturados de maior intensidade tecnológica, como automóveis e autopeças, máquinas e equipamentos, semicondutores, químicos e farmacêuticos.
É justamente essa assimetria que explica a ênfase do acordo bilateral em manufatura avançada, economia digital, minerais críticos e bioeconomia: a intenção declarada é deslocar a relação para um terreno de parceria produtiva, não apenas de compra e venda.
O pano de fundo: tarifas, cadeias e a corrida por tecnologia
A retomada do tema Mercosul–Coreia do Sul acontece em um mundo em que o custo de exportar passou a incluir um item que não aparece na fatura: risco regulatório. Em mercados grandes, a discussão não é só demanda — é a previsibilidade para precificar o “custo total” ao longo da cadeia.
Nesse ambiente, acordos comerciais voltam a funcionar como ativos de estabilidade. E o movimento de Seul aponta para isso: ao mesmo tempo em que se assina um acordo bilateral com foco em integração produtiva, reacende-se a ambição de um tratado entre blocos que pode reduzir barreiras e, principalmente, organizar regras.
O que observar daqui para frente
Sinais que indicarão o avanço do acordo Mercosul–Coreia do Sul
Se a promessa é concluir o acordo Mercosul–Coreia do Sul em 2026, três sinais serão determinantes para medir se o anúncio vira entrega:
Em resumo: o que acontece agora não é apenas mais um memorando. O acordo bilateral assinado em Seul cria uma plataforma de cooperação em áreas onde o mundo está concentrando investimento e poder econômico. E a fala de Lula sugere que o governo quer aproveitar esse impulso para destravar um tratado maior, parado desde 2021, que pode redesenhar o acesso do Mercosul a uma economia asiática altamente industrializada.








