
Em um cenário de juros altos e crédito restrito, as empresas brasileiras vêm recorrendo de forma mais intensa a recuperações judiciais e extrajudiciais como forma de suspender a cobrança de dívidas, ganhar tempo para renegociá-las e manter a operação funcionando.
O número de empresas em recuperação judicial, mecanismo que é de longe o mais usado, saltou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre deste ano, segundo dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial. O número, que foi de 3.823 para 6.341 nesse intervalo, foi puxado pelo “agronegócio”, “transporte e logística” e “varejo”.
Número de recuperações judiciais saltou 65,8% desde 2023
(Quantidade de recuperações judiciais de empresas pequenas, médias e grandes, em mil)
Fonte: Monitor RGF-BIZDOC
No caso das recuperações extrajudiciais, usadas por grandes companhias que negociam com grupos de credores antes da aprovação final da Justiça, a quantidade subiu de 43 casos para 82 no ano passado, alta de 90%. Neste ano, até esta quarta-feira (18), o número ficou em 44, de acordo com o Obre (Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial).
“A conjuntura ruim machuca as empresas fragilizadas. O desenho que temos hoje é de um volume de empresas que não se prepararam corretamente para a turbulência e vão viver as consequências”, diz Claudio Damasceno, especialista em reestruturação e coordenador do monitor da RGF.
Recuperações extrajudiciais quase dobram desde 2023
* Os dados de 2026 vão até o dia 18 de agosto
Fonte: Obre (Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial)
A taxa básica de juros (Selic) está em dois dígitos desde o início de 2022, e saltou da mínima histórica de 2%, entre o final de 2020 e início de 2021, para os atuais 14% ao ano.
“Um dos principais fatores que explicam o número elevado de recuperações judiciais é a permanência dos juros em patamares elevados por um período prolongado”, afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian. “Isso encarece o custo de capital e torna muito mais difícil a rolagem das dívidas [ou seja, pegar novos empréstimos para pagar dívidas antigas].”
As taxas de juros cobradas no capital de giro, que chegaram a ficar abaixo de 11% ao ano no final de 2020, ultrapassaram os 26% no final do ano passado. Hoje a taxa está em 23%, de acordo com dados de junho do Banco Central para recursos livres (que excluem financiamento imobiliário e rural).
“Temos uma situação econômica que já é bem difícil há pelo menos dois anos, que vem se acumulando e gerando grandes desafios para as empresas”, diz Juliana Biolchi, diretora do Obre.
Enquanto isso, o total emprestado vem encolhendo: nos primeiros seis meses deste ano, a queda foi de 0,9% na comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com o BC. A taxa de inadimplência das pessoas jurídicas está em 4%, bem acima do patamar de 1,5% em dezembro de 2020.
“A concessão de recursos é impactada por uma postura mais cautelosa das instituições financeiras diante do aumento do risco”, diz Abdelmalack.
Leia a notícia na íntegra em:
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/recuperacoes-judiciais-crescem-66-com-juros-altos-e-credito-restrito-puxadas-pelo-agronegocio.shtml








